Grupo Cidade
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Roberto Christo: arte e sensibilidade

 

Suas palavras imprimem sensibilidade artística e, sobretudo, humana. Mente aberta, coração mais ainda. Em uma conversa franca e descontraída, o diretor, produtor e roteirista Roberto Christo falou sobre sua carreira, seus projetos profissionais e os valores humanos em seu cotidiano. Impossível não se encantar com um dos mais notáveis idealizadores de arte no Brasil. Arte, no caso dele, no sentido mais amplo, irrestrito e abrangente. Confira a entrevista feita pela Frisson a seguir:

Como ocorreu a sua entrada no universo artístico?
Acredito que desde criança já era um apaixonado pelas artes. O meu pai é colecionador de artes plásticas e a minha mãe é musicista e trabalhava na Universidade Estadual de Artes em Minas Gerais. Portanto, cresci rodeado pelas manifestações artísticas. Eu já nasci uma criança inquieta! Para me adaptar à escola, minha mãe precisou me matricular em uma instituição que tinha um método de vanguarda para época, ou seja, tudo era pautado na liberdade de ser, de criar e de escolher. Era turno integral e tínhamos aula de canto, teatro, pintura, francês. Se quiséssemos dormir, ao invés de frequentar as aulas, era nos dado este direito! Foi através desta liberdade de escolha que me dei conta que é possível encontrar o prazer, inclusive com as obrigações da vida. O reflexo desta atitude na minha vida adulta foi ter a consciência que o trabalho precisa estar ligado àquilo que você goste de fazer, aliando esta diretriz às necessidades de responsabilidade profissional e preparação intelectual. Tudo através de muito estudo e de todos os assuntos.

O que foi fundamental para seu início profissional?
Acredito que tenha sido a minha formação. Foi através dos estudos que construí minha base intelectual, desta maneira montei aquilo que chamaria de pilares fundamentais para ser um profissional: exercitar a sensibilidade pessoal e intuitiva; se abrir para o lado comercial, uma vez que vivemos em uma sociedade onde o retorno econômico é fundamental para se manter em um ofício; conviver bem com a diversidade social, pois estamos lidando com pessoas de todos os tipos, culturas, origens, sentimentos e não máquinas previsíveis.

Quais as dificuldades que superou no começo da carreira?
São as mesmas dificuldades que preciso superar todos os dias! Quando crio uma obra, seja um roteiro, um filme ou um programa de viagens ou entrevistas, preciso encontrar o ponto ótimo que atenda às minhas divagações artísticas, que satisfaça as expectativas comerciais de um patrocinador e que atenda ao desejo do consumidor ou espectador, despertando neste uma emoção ou uma sensação de entretenimento. Se você não corresponder as estes três estágios, não vai conseguir dar um passo adiante. O caminho das artes é cheio de adversidades, falta interesse de todas as partes, falta investimento de dinheiro, falta abertura dos canais de maior penetração e acessibilidade. Arte é um negócio de risco, investimos muito para termos um retorno a longuíssimo prazo, ou até mesmo perdas.

O que diferencia seu lado como diretor, produtor e roteirista?
O meu lado diretor é aquele que gosta de criar e trabalhar em grupo, de dar e ouvir opiniões de sua equipe, acho fundamental creditar os méritos de uma obra a todos que fazem parte dela. Um diretor não pode ser autoritário ou intransigente, precisa saber criar e trabalhar em equipe. Logo, meu lado diretor é aquele que exercita isto. Meu lado produtor tem duas faces, aquela que lida com as finanças e administra tudo com "mão de ferro", pois nunca há recurso suficiente para se produzir. Já a segunda face é aquela que trabalha como um "burro de carga", cheio de desafios que nos fazem repensar, se realmente vale a pena seguir na profissão. O lado roteirista é o mais lírico e individual! Aqui é o momento de me permitir, é o meu momento de criar, enlouquecer, ponderar. Enquanto roteirista, preciso investir minhas energias, sensibilidade e poder de observação. Este meu lado se dá o direito de trabalhar sozinho e só ouvir opiniões quando pede.

Como surgiu a ideia de criação da Exotique Filmes?
Já trabalhava como pessoa física autônoma, há alguns anos. Durante uma viagem à ilha de Bali, na Indonésia, aproveitava o meu tempo de folga para meditar na praia, curtir a energia de paz do local. Foi em um destes processos de introspecção que tive um insight. Comecei a perceber que mesmo trabalhando com criação de conteúdo e marketing, precisava dar mais chances ao meu lado "arte", dar vazão às minhas utopias, porém de uma maneira profissional. Daí, pensei em criar uma produtora que pudesse me respaldar na utilização dos benefícios das leis de incentivo à cultura, teria assim o casamento da arte com o negócio. Pelo fato da ideia ter nascido em um lugar considerado exótico, decidi dar o nome da empresa de Exotique Filmes.

Qual o principal papel da empresa e como define sua importância no mercado?
O principal papel da empresa é realmente profissionalizar os meus negócios. Após alguns anos de experiência nesta indústria, percebi que tudo é muito mais difícil do que eu imaginava. Percebi que os empresários brasileiros usam as leis de incentivo à cultura como uma ferramenta barata de marketing. Tive vários projetos aprovados pelo Ministério da Cultura, mas encontrei barreiras para captar recursos de renúncia fiscal. As empresas, mesmo cientes que o dinheiro que elas investem nas nossas produções seria utilizado para pagar seus impostos, querem ser parceiros em algo com "glamour". Com isso, muitas vezes, a arte e a responsabilidade social perdem sua importância em uma obra que busca recurso incentivado. A maior importância da minha empresa para o mercado é tentar fazer deste mesmo mercado um ambiente de respeito e valorização da produção cultural enquanto um negócio sério. A indústria do audiovisual lida com pessoas de todos os tipos e níveis, eu já tive parceiros de trabalho que não apareceram para cumprir suas tarefas por falta de um vínculo contratual, outros que agiram sem ética se utilizando da imagem da empresa, sem o meu conhecimento, para conseguirem patrocínios a serem utilizados em benefício próprio. Tive um caso de uma atriz agenciada pela minha empresa, que quando recebeu o contrato para fazer uma trabalho, que seria produzido por uma empresa de outro estado, ligou para esta segunda e fechou diretamente com eles, com a finalidade de embolsar, também, a comissão de agenciamento que seria paga à minha produtora. Infelizmente, vivemos em um país cheio de tributos e onde, vez ou outra, nos deparamos com alguém querendo nos dar um golpe, por isso é importante existir juridicamente, assim respeitamos os trâmites legais e nos asseguramos ou temos como lutar, na justiça, contra os tais golpistas. Além disso, podemos nos organizar em associações e batalhar por melhores condições de trabalho.

Sobre teatro e televisão, de que maneira sua formação artística nessas áreas foi primordial em sua carreira?
Quando fiz faculdade de Comunicação, estudei teatro. Tal experiência foi tão proveitosa, pois eu era muito tímido e consegui me soltar para mundo, que resolvi fazer um curso paralelo de teatro em uma conceituada escola de Belo Horizonte, Núcleo de Estudos Teatrais, cidade onde nasci. Acredito que o teatro seja o ofício que mais lhe dá a oportunidade de exercitar a criatividade, o improviso, a inteligência emocional, a interatividade. Sem esquecer que o teatro é fascinante tanto para quem faz, quanto para quem assiste. É uma das grandes escolas do artista. Já a televisão te mostra a linguagem popular, informal. Não quero dizer que falte arte na TV, muito pelo contrário, a produção televisiva tem o apelo do entretenimento, e para isso, é preciso muita arte para apresentar um conteúdo cultural sem ficar cansativo. Afinal, eles precisam levar conteúdo no momento relax do espectador. A TV me ensinou que preciso balancear a minha obra, tornando-a uma peça de arte, agregando um valor comercial e de entretenimento.

A temática da sexualidade é nítida na Exotique Filmes. Até que ponto ocorre a abrangência desse assunto? Como se porta em relação à diversidade existente na área?
Sim, a sexualidade e os gêneros. Os costumes, a política, a moral e a cultura são resultado do comportamento humano, são os frutos da vida em comunidade. A partir daí, criamos as regras, as leis, os deveres e, claro, fomos buscar dentro da filosofia, os nossos direitos! Aquilo que seja o mais justo e igualitário para esta mesma comunidade. Sempre achei que arte é o exercício da mente. Só se sensibilizam com a arte, aqueles que interpretam as mensagens, refutam as verdades, analisam e se abrem para as opiniões diversas. Eu chamo isto de inquietude. A inquietude que instiga a pensar e questionar, o motor propulsor da evolução social. Só seremos uma sociedade evoluída, quando pararmos de nos apropriar das verdades dogmáticas e repetí-las da boca para fora, é preciso digerir e processar as ideias. Só enxergaremos as cores quando aceitarmos a diversidade. Desde que a internet se tornou um campo de interatividade, ou seja, desde que começamos a ter a oportunidade de opinarmos sobre os artigos, postagens, editoriais etc, tenho visto que a sociedade começou a mostrar a verdadeira face e frases de efeito que sempre ouvi, foram por água abaixo, por exemplo: "No Brasil, não há racismo", "As mulheres contemporâneas são iguais aos homens", "Não tenho preconceitos contra os gays, tenho até um amigo assim". Todas as vezes que vejo um artigo sobre um assunto destes, leio os comentários postados a seguir e vejo velhas frases que tentam mascarar o preconceito latente que nunca deixou a sociedade, só esteve escondido sob o tapete. Já vi coisas como: "Infelizmente, ver uma pessoa com aquelas características dirigindo um carro bacana, é suspeito", "Esta mulher é uma vadia, já está no terceiro casamento", "Não sou obrigado a ver dois homens trocando carinhos em público, muito menos meus filhos". Cansado de ler este tipo de coisa e com vontade de falar, elegi como bandeira de defesa, a questão da sexualidade/da orientação sexual, pois acho que ainda é o movimento que menos conquistou direitos no Brasil. Daí, pensei: por que não me utilizar da comunicação para mostrar que ainda há muito preconceito nesta área? Com minha sede de produzir, criei várias peças voltadas para o assunto, mas estou trabalhando para me adaptar ao mercado, pois algumas emplacaram, enquanto outras nem tanto. Pelo menos aprendi que tais questões devem ser abordadas com bastante sutileza e exigem muita criatividade. Independente do tipo de preconceito, acredito que todas as frases citadas acima tem seu lado pernóstico, mesmo quando politicamente corretas. Devemos lidar com a diversidade nos esquecendo daquelas características pessoais, que marcam a diferença, e nos focando no outro enquanto cidadão. A igualdade existe na cidadania, temos os mesmos deveres e os mesmos direitos, apesar de sermos diferentes. Esta é a maneira que uso para lidar com a diversidade, democraticamente. Quando falo diferente, quero dizer que exercemos papeis sociais diferentes, temos características genéticas pessoais, ou seja, somos homens, mulheres, gays, héteros, brasileiros, chineses, brancos, negros ou uma infinidade de coisas.

De que maneira sua relação com África e Ásia engloba sua bagagem cultural, social e profissional?
A questão da África me inspira quando penso que um líder, um sábio e defensor dos direitos humanos tem estas qualidades no sangue. É um dom que independe de origem, classe social e raça. É ser benevolente e justo. Isto foi o que a África mais me ensinou. Foi lá que vi de perto as mudanças advindas das filosofias do grande Nelson Mandela. Ele tinha tudo a ver com a luta por igualdade, conseguiu se expor, mostrar suas ideias de maneira pacífica, assim como a obra artística faz. Já a Ásia é o berço da minha alma, eu nunca me identifiquei tanto como uma região. Foram os ensinamentos da Filosofia Budista que deram a guinada da minha maturidade. Claro, há uma infinidade de culturas dentro deste maior continente do mundo, algumas atrasadas, outras super desenvolvidas. Muito me impressiona a disciplina dos japoneses, os bons resultados da medicina milenar asiática que inclui a acupuntura, as massagens e as ervas. Aprendi e aprendo, todos os dias, com os sábios pensamentos do tibetano Dalai Lama. O oriente, no geral, preza bastante o respeito ao próximo.

Como interpreta o papel artístico sendo protagonista na formação de uma sociedade como a brasileira?
Como uma ferramenta poderosa. Inclusive este é um dos meus argumentos de marketing para vender arte, se você é sensível, criativo e inteligente o bastante, é capaz de criar a sensação que você desejar no seu espectador, basta levar a mensagem de maneira certa, pois hora melhor do que esta não há. Imagine que quando alguém resolve assistir a um filme, ou documentário, ou uma peça de teatro, até mesmo ao ouvir uma música ou frequentar um museu, aquela foi uma escolha voluntária deste espectador. Foi o momento da vida que ele dedicou seus sentidos à finalidade de receber algo. Que seja uma informação, uma sensação ou prazer. Nos dias de hoje, despertar o interesse e a atenção dos outros é uma preciosidade. Então, aproveite o momento quando todos são olhos e ouvidos, você pode se tornar uma referência.

Por fim, quais as metas para sua vida pessoal e profissional para os próximos anos?
Minha meta de vida é me tornar um ser humano cada vez melhor, cada vez mais altruísta. Quero que meu sorriso seja acalentador, quero que minhas atitudes sejam justas com todos, inclusive comigo mesmo. Quantas vezes abrimos mão do nosso prazer para ser gentil com os outros e acabamos por nos auto sabotar? Quero que a minha arte seja uma referência para acordar a sociedade, botar todos para pensar. Quero que as pessoas sintam o mesmo que senti quando li os livros "Luz Del Fuego, a Bailarina do Povo",por Cristina Agostinho,, "O Harém de Kadafi", de Annick Cojean, "Nômade", de Ayaan Hirsi Ali, "Eu Sou Malala", de Malala Yousafzai e Christina Lamb. Senti que o sentimento de empatia é sempre igual dentre um universo de diferenças. Senti a necessidade de ser um agente transformador. Eu citei a literatura aqui, mas a mensagem pode utilizar qualquer um dos diversos veículos das artes. Quanto às minhas metas profissionais, eu luto e batalho por um reconhecimento, pois não adianta produzir e deixar o produto empoeirando na prateleira. Quero ser conhecido, para que mais oportunidades de bons trabalhos apareçam. Quero ganhar dinheiro suficiente para poder trabalhar o resto da minha vida com aquilo que amo.

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