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Luiza Helena Trajano e o sucesso do Magazine Luiza



Luiza Helena Trajano (Foto: Frisson)

Em meio a essa pandemia e aos desafios que ela está impondo ao mercado e a todas as categorias trabalhistas, o otimismo e a ousadia em sua capacidade de se reinventar dão destaque a empresária Luiza Helena Trajano. Ela, que é presidente do Magazine Luiza e presidente do Grupo Mulheres do Brasil, mostrou um pouco de seu perfil antes e durante todo esse turbilhão na saúde e economia mundial. E mais, trouxe as perspectivas de futuro para seu grupo e para todo o Brasil, seja empresa ou pessoa física. Tudo isso em um bate-papo exclusivo com a empresária de comunicação e cap do Frisson News, Gaida Dias. Acompanhem!

Uma das novidades mais recentes da Magazine Luiza é o Parceiro Magalu que está sendo um sucesso, mesmo com a pandemia. Qual o segredo?

Uma coisa que me deixou muito satisfeita, nesse momento que estamos vivendo, um momento tão grave, tão sério que não podemos esquecer, que nem os produtores de filmes de terror imaginariam um vírus causar o que causou, pegando todo mundo de surpresa, é que essa situação pegou o Magazine Luiza em um momento já bem no digital. É uma das poucas empresas no mundo que saiu do físico, foi para o digital e sem abandonar o físico. Porque a maioria das empresas já nasceram muito grandes no digital. como Alibaba e Amazon. E quem tinha loja física ficou muito perdido no mundo inteiro. Muitas pessoas chegando a falar que as lojas físicas iam acabar. E nós já estávamos muito bem, com quase 60% das vendas no digital, com 300 lojas físicas. Montamos 150 lojas no Norte e Nordeste no ano passado. E íamos montar mais 150 esse ano. Mas tivemos que parar por esses três meses. Então, estamos com duas coisas importantes nesse momento: digital e o capital de giro. Nossa empresa estava capitalizada. E fiquei muito orgulhosa do nosso time, pois fizeram o que eu sempre acho que a gente tem que fazer: pensaram em alternativas e no Brasil, trabalhando dia e noite sem parar como se precisassem salvar a empresa. E tomaram uma medida, viram o mercado, o que o país estava precisando e o que tinhamos a oferecer. Tínhamos o Magazine Luiza e Você em que você podia entrar. Fomos a primeira empresa que trabalhou o virtual e o facebook no mundo. Em cinco dias mudou tudo e criamos o Parceiro Magalu para que quem quisesse pudesse se tornar um vendedor. Era só se inscrever e a pessoa já se tranformava em um parceiro individual. Temos mais de 20 mil parceiros e que acabaram tendo uma renda e algo para fazer. Só que no Magazine Luiza e Você era necessário algo mais sofisticado, necessitava de mais ferramentas. Com essa mudança toda após os cinco dias, o processo passou a ser mais simples. 

E com a pandemia, quais medidas o grupo adotou e quais as perspectivas?

Num primeiro momento demos férias a todos. Temos doze médicos por regional para saber das condições dos funcionários, ou seja, uma equipe cuidando da saúde de todos. E não achamos que tem que separar saúde da educação. Também sabemos que o CNPJ você adquire outro. Então, cuidamos dos dois: demos emprego e entramos no movimento do não demita, Porque é muito triste a pessoa em casa e parada. Mas claro que isso não quer dizer que vamos ficar nessa a vida inteira. Agora, estamos lutando para salvar as empresas para que isso não aconteça. Mas pelo menos nesses dois, três meses, isso foi feito. Só não contratamos as pessoas que estavam em período de experiência. Elas receberam um valor de 1 mil reais e estão na prioridade da fila de contratação para quando isso tudo passar e continuarmos a expansão. E enquanto isso, fui trabalhar com o governo e ver as medidas emergentes para salvar as empresas. 

Por que em entrevistas você vem dando o conselho de nesse momento comprar do pequeno empreendedor, pequena empresa? E, na sua opinião, qual seria o caminho certo para eles nesse cenário atual?

É o PPP: pense primeiro no pequeno, porque ele gera emprego. E eu já fui pequeno, ja fui médio. Eu sei o que é depender do faturamento do dia para pagar no outro dia. Não é fácil. Então essa é a minha luta: fazer o dinheiro chegar. Para que o BNDES solte o dinheiro através do Banco do Brasil, porque os bancos do governo ajudam muito nessa hora. O que é um erro, pois o fomento deveria ser direto. É muita burocracia, pedem muitas garantias. Mas o que aconselho é que os pequenos e médios empreendedores e até as pessoas físicas façam uma avaliação nesse momento dos seus valores e da sua vida. Estamos em um momento muito sério. Isso não pode ter acontecido sem ser para uma elevação do nível da nossa consciência. Então as pessoas precisam viver o aqui e agora, porque dessa forma se consegue acalmar o coração e se vive a cada dia aquele dia. E aos que se perguntam como vai ser para sair dessa, não se preocupem porque o vírus vai se responsabilizar por tudo, inclusive socialmente. É hora de ver o que a sua empresa acertou e o que pode ser feito de diferente, Vamos nos desfazer do que é micro e nos ater ao que é macro. Eu estou otimista, mas não é aquele otimismo de ficar de braços cruzados. Estou com a consciência de que o Brasil é meu. Até essa cultura da doação, tenho certeza que a gente vai sair muito melhor dessa se soubermos aproveitar isso.

Na última vez que você esteve em Fortaleza, o que chamou a minha atenção foi justamente o seu otimismo. E continuo admirando porque, como uma mulher empreendedora, você nunca para e está sempre incentivando todo mundo. Isso é um exemplo a ser seguido.

E eu posso explicar esse otimismo. Porque não é ficar de braços cruzados. É lutar para que as coisas boas aconteçam nesse momento tão ruim. Agora, se eu não lutar, nada vai acontecer e vou permitir que as coisas ruins aconteçam. Então, cada um tem que lutar para que as coisas boas prevaleçam, como a solidariedade, a cultura da doação, você pensar no outro. O momento nos fez confrontar muito o desnível social. E a responsabilidade é de todo mundo. Não é só dos governos, é de todos nós. 

Quando essa pandemia passar, qual o próximo desafio para o Magazine Luiza? 

O desafio será para todos. Nesse período limpei da minha mente tudo o que eu sabia. Estou voltada para o mundo digiital porque estou impressionada com a comunicação digital. Vejo que, por mais que fosse moderna, estava ainda muito fechada. Essa comunicação digital está passando por uma transformação muito grande. Não vamos mais sair dessa como antes. Vai voltar o abraço, o beijo, esse último vai demorar um pouco, só quando tiver a vacina.

A senhora como mulher tem um papel muito importante. Mas já sofreu preconceito ou foi discriminada pelo fato de ser uma líder?

Eu tenho tudo para sofrer preconceito. Sou de Franco, cidade do interior de São Paulo. Cheguei em São Paulo muito novinha para fazer compras do Magazine Luiza. Eu nunca morei fora do País. Até hoje eu sou a única presidente na minha área. Eu sou de família em que as mulheres sempre tiveram muito protagonismo. Fui criada pela minha mãe para ser protagonista e trabalhar. Então, isso me ajudou muito. Mas o que mais me ajudou é que não tenho dó de mim. Eu tenho autoestima boa, até por ser filha única. Tive muita gente que acreditou em mim. Minha mãe me incentivou e sempre disse que eu fosse sozinha que eu era capaz. E eu sempre pensava que se alguém me rejeitasse, aí que teriam que me escutar. Eu pensava em como poderia fazer. Porque quando você tem raiva, ela te domina. E eu não quero ser dominada pela raiva. A vida inteira não me deixei ser dominada por esse sentimento. Aí quando comecei a trabalhar e a conviver com outras mulheres, comecei a ver as dificuldades, como é duro ser mulher no mercado. E uma coisa que me deixa muito mal e que eu fico muito brava é o salário diferente. Porque isso não é questão de cultura, é questão de caneta. E eu entrei totalmente nessa luta. Não sou contra os homens, Sou totalmente a favor da força masculina. Tenho uma força totalmente feminina para administrar, pois choro, sou caótica. Mas tenho respeito pela força masculina. Sempre digo aos meus amigos homens, que me querem muito bem e sou muito grata, que eles têm filhas e netas e não sabem a lutar que tem a mulher. A luta da mulher negra é pior ainda. Então, estou nessa luta junto a mais 40 mulheres. E realmente quero fazer do Grupo Mulheres do Brasil o maior partido político apartidário do Brasil.

Você é a presidente do Grupo Mulheres do Brasil. Como está a expansão pelo mundo?

Nós temos 12 grupos. Acabamos de inaugurar um em Düsseldorf, na Alemanha. Também abrimos em Londres. Estamos em muitas cidades nesses 12 países. E com a conexão digital conseguimos reunir até 3 mil mulheres de vários países ao mesmo tempo. Isso não tem limite. E agora quero reunir 100 mil. Precisamos ser maiores. A sociedade civil precisa ser o maior partido político apartidário e precisamos atuar e não brigar. 

E ainda existe algum sonho a realizar?

Eu sou uma pessoa muito de ter propósitos. Já tive muitos sonhos em vários momentos da minha vida. Para uma mãe, o maior sonho é ver os seus filhos sendo gente na vida, comprometidos, e meus três filhos estão muito bem encaminhados. No profissional, eu sempre pensei porque as empresas crescem e as pessoas são infelizes. Então, essa também foi minha luta. Agora, o meu sonho e a minha luta é que todo mundo entenda e que o Grupo Mulheres do Brasil sirva para aumentar o nível de consciência das pessoas para que possam assumir esse país maravilhoso como seu. É a união da sociedade civil para que nos transformemos em um Brasil mais justo.

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